sexta-feira, 15 de abril de 2011

O dia em que compramos uma passagem só de ida para o fim do mundo

Agora tenho acesso ao blog, estou tão feliz!
Estamos na Capadócia, então os posts estarão um pouco atrasados daqui em diante por causa do maldito firewall do hotel em Istanbul...

Mas hoje eu vou falar sobre a nossa aventura no último dia em Istambul.

Uma vantagem deste blog para os leitores é a simples regra de observar muito bem o que fazemos e se fazer exatamente O OPOSTO. Ok, não exatamente tudo, porque afinal nós pesquisamos horrores e não poderíamos nos dar mal em tudo, mas tire aí a parte da bagagem.
De qualquer jeito, listando nossos erros, poderei deixar o dileto leitor atento às diversas armadilhas que possam aparecer. E evitar roubada é sempre joia.
Eis que no nosso último dia em Istambul já havíamos decidido que iríamos fazer um passeio pelo Bósforo. Há algumas maneiras de se fazer isso; uma delas é de navio-ônibus (deniz otobüzü), outra é de ferry, outra é pelo serviço de cruzeiro pelo Bósforo que tivemos a infelicidade de achar antes dos outros.
Nossa primeira ideia era pegar o ferry. Aparentemente, ele custa YTL 1,75, porque é somente um serviço de transporte do lado europeu para o asiático e vice-versa.
Pegamos um tram para a estação de Eminönü, onde fica o porto, lá pras 13h (havíamos passado a manhã tentando convencer o Banco do Brasil de que não fraudamos nosso próprio cartão de crédito e que só estavamos querendo comprar passagens de avião) e no primeiro cais que vimos algo relacionado a Bosphorus cruise, fomos pedir informação.
A experiência estava para comprovar que, quanto mais perto do mar (ou longe de Sultanahmet), menos os turcos falam inglês, e o senhor bigodudo do guichê conseguiu me informar macaqueando que o round trip do cruzeiro era YTL 25 e o one way ticket era YTL 15.

"Ok, mas e o ferry?"

"Fica no outro píer."

Nesta hora você deveria se perguntar, caro leitor, "e você foi pro outro píer?", assim como eu devia ter me preocupado.

Não. Não fomos para o outro píer.

Este passeio em questão durava 1h30, e se comprássemos o round ticket, só poderíamos pegar o barco da volta que sairia às 17h do ponto final para voltar pra Eminönü.

Nesse momento, fui acometida por um lapso geográfico e pensei que não haveria problema se parássemos no lado asiático; li em todos os lugares que o melhor jeito era pegar um ferry e voltar da Ásia de ônibus. Esse lapso geográfico foi a desgraça que se abateu sobre nossas cabeças.

Perguntei pro senhor bigodudo se poderíamos pegar um ônibus para voltar para Eminönü e ele disse que siiiiii, no porto de Sariyer. Me dei por satisfeita, comprei o bilhete só de ida, subimos no barquinho e sentamos lá em cima, bem  na frente, pra receber o vento gélido do Bósforo diretamente na fuça.


Pra resumir para os que têm preguiça de ler textos extensos: o passeio é bonito, mas acho que deve ser mais interessante com sol e no verão. Se você tem preguiça, pode parar de ler aqui. E não receba o vento gélido do Bósforo diretamente na fuça no inverno.



O barquinho parava em portos ao longo do Bósforo, ficando cada vez mais longe de Eminönü. Meu lapso geográfico não atentou para o fato de que existem 3 nacos de terra em Istambul. Embaixo, que é onde tem Sultanahmet e a Hagia Sophia, em cima, que é onde fica o bairro de Beyoglu e a área de Taksim, e à direita, que é a parte asiática.

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Nacos de terra ferraram minha vida
E lá fomos nós, passamos uma ponte, o Palácio Dolmabahce, o Ciragan Palace, outra ponte, fomos subindo, subindo..



Essa realidade dos nacos de terra me atingiu como uma bigorna quando, olhando para o mapinha do senhor bigodudo, descobri que Sariyer era o último porto do lado europeu e OHMEUDEUS não ia ter jeito de voltar da Asia.



O porto da Asia em que desceríamos seria o Anadolukavagi, uma vila de pescadores na beira da entrada para o Mar Negro.



BROTHER, chegamos na boca do Mar Negro numa vila no fim do mundo com passagem só de ida.



A vila no fim do mundo. O ponto azul é onde chegamos. O ponto verde é onde ficaremos na volta. Sultanahmet fica mais ou menos onde tá escrito Inebey Mh.


Eu já queria arrancar todos os meu cabelos a pinça, e resolvi perguntar pro mocinho do bar do barco COMOFAS pra pegar ônibus da Ásia pra Europa.



"Eminönü. 5 o'clock."



"I know. How about a bus?"



"Eminönü. 5 o'clock."

Eu me conformei pensando que marinheiros não têm a obrigação de fazer curso da Wisdom, mas eu já estava muito em pânico do que fazer a seguir. O problema não seria só gastar 15 YTL a mais e sim gastar ao todo 5 horas em um passeio que deveria durar 30 min.

Chegando em Anadolukavagi, vimos um monte de restaurantes de peixe à beira-mar com um garçom em um deles acenando enlouquecidamente para os clientes em potencial, no que eu julguei ser a única oportunidade que eles tinham no dia de ganhar um trocado.


Ao desembarcarmos, a minha mãe foi fazer contato com um nativo, que só sabia falar que o barco partia às 17h, não importando em quantas palavras dizíamos que queríamos outro modo de voltar à civilização. 

"Bus? Another boat?" 

"Five o'clock. Five o'clock. Twenty minutes. Open"

Nesse momento minha mãe já havia ficado com medo de perdermos o vôo no dia seguinte, porque aparentemente esse era o ÚLTIMO BARCO FOREVER pra nossa salvação.

Eu falei com uma família francesa que já tinha comprado a passagem de ida e volta, mas ainda assim estava em dúvidas do que fazer. A família pareceu aliviada ao saber nossa condição de não-munidas de passagem de volta, então podemos dizer que fizemos uma boa ação no dia.

Fomos tentar achar um restaurante, todos eles com um esquema de "fixed menu", em que já vinha o peixe, a salada, as batatas e a bebida incluída. Fomos até o final da vila (tipo 10 passos) e achamos crianças tocando numa banda marcial dentro de um lugar sob a guarda de um soldado com uma metralhadora. Obviamente essas crianças estavam fazendo trabalho forçado, porque nenhum ser em sã consciência estaria fazendo qualquer coisa ao ar livre daquele jeito na beira do Mar Negro.
Sorriam, mesmo que esteja difícil!
Quando enfim achamos um restaurante que pareceu interessante, em meio a algumas desavenças sobre cardápio entre nós, ouvimos que o "fixed menu" era 13 YTL. O salão era quente, a comida era barata e iríamos assentar os pensamentos sentando nossos traseiros na cadeirinha com vista pro mar.

O cardápio era algo a parte. Era uma tabela com os itens em turco e traduções pra francês, inglês, espanhol e alemão, com as traduções no nível do "CONTRA-FILÉ = AGAINST FILÉ" que eu achei no Rio. Não me lembro das traduções.

Pegamos 3 seleções do fixed menu, cada uma com um peixe diferente, só sei que tinha um linguado e um dourado, o outro era alguma coisa a ver com cavalo, mas não era cavalo-marinho.


Na  verdade, parecia uma sardinha. Tinha também batatas fritas com catchup, saladinha e calamares fritos com um molho que tomamos com vinho da casa.

Momento TEMÇO de desavença

Mau-humor se cura comendo


Almoço terminado, aproveitamos para usar o banheiro do restaurante já que era bastante ocidental comparado com o do barquinho (ou seja, havia um vaso sanitário e não um buraco no chão com uma canequinha ao lado de uma torneira pra a higiene) e pedimos a conta. Foi quando descobrimos que as 13 liras do almoço barato e quentinho eram, na verdade, 30. MA INGLISH TO BAD.

Conta paga (¬¬), fomos fazer amigos cachorros  e gatos pela cidade, já que pareciam nos entender mais que os nativos. Aproveitamos para comprar alguns olhos turcos e tentar desfazer a urucubaca do dia e retornamos ao porto para comprar os bilhetes de volta:. minha mãe parecia um pouco ansiosa com a possibilidade de ter que dormir no fim do mundo, além de perder o vôo do dia seguinte para Nevsehir.

Não havia ninguém na bilheteria, como era de se esperar, mas nossos olhares insistentes parecem ter sensibilizado o bilheteiro que abriu o guichê, nos vendeu os bilhetes e fechou novamente a janelinha. 

Salvas, retornamos a Istambul. Depois de mais 1h30.

Para que o dia não parecesse completamente perdido, resolvemos passar no Bazar de Especiarias, que é o mesmo que o Bazar Egípcio ('Mısır Çarşısı'). A palavra Mısır, em turco, tem um significado duplo, que é "Egito" e "milho". Então, às vezes traduzem errado o nome do mercado como "Corn Bazaar".

Dá para chegar no bazar de especiarias rapidinho a pé parando nas estações de tram de Eminönü ou Sirkeçi.

Cores e cheiros no Bazar de Especiarias


Lá vimos temperos de todos os tipos, galinhas, galos, cachorrinhos, muito cheiro de peixe e... sanguessugas!

Bloody hell!!!



Chegamos ao mercado e ali  compramos alguns temperos e lokuns. Fomos praticamente expulsas por causa do horário, com os turcos fechando todas aquelas portas enormes cada vez que chegávamos a uma das saídas. Conseguimos sair em meio a uma horda de homens enlouquecidos que lavavam o chão com mangueiras e fechavam as lojas mas não se esquecendo, é claro, de nos assediar tentando adivinhar de onde vínhamos. Um deles me pediu pra entrar na loja e dançar samba. ¬¬

Voltar pro hotel parecia ser o último desafio do dia: subimos e descemos uma centena de degraus em galerias subterrâneas e nunca chegávamos na rua em que passavam os trams. Pedimos informações a motorista de taxi que nos respondeu macaqueando até que encontramos a direção certa. 


Também passamos pela estação de trem de Sirkeçi, que vem a ser o ponto final da estação quando o Expresso do Oriente operava. Lá tem um museu, mas estava fechado.

No final do dia, fomos comer o jantar de cortesia que o hotel ofereceu. É claro que o meu prato veio mais picante que o fogo do inferno, mas eu já tava tão cansada que engoli tudo e falei diliça.


__x__


GENTE, tá muito difícil escrever contando tudo, os dias são muito intensos e normalmente chegamos tão exaustas que não dá pra botar o tico e teco pra trabalhar num texto bem-escrito.

Mas urrú, to fazendo dancinha aqui agora porque temos leitores até do Sul, e isso é muito legal! Eu sei que aqui vão aparecer mais crônicas e as informações úteis terão de ser selecionadas entre um monte de palavras, mas qualquer pergunta específica, me mandem por comentário que eu vou tentar responder à medida do possível.

Só pra dar as últimas notícias: amanhã saímos da Capadócia, mudamos os planos e vamos pegar um avião pela Pegasus Airlines para Antália (nós demos pra trás em pegar 12 horas de busão), vamos passar o dia descansando e de lá vamos de carro para Marmaris. Hoje voamos de balão, quase dei um siricotico porque tive vertigem, pressão baixou e eu comecei a chorar, nada fora do normal. Visitamos a cidade subterrânea, que foi ANIMAL e claustrofóbico, e visitamos um Caravanserai, que era um hotel para caravanas durante a época da rota da seda. E também fomos a Avanos, que é um centro de cerâmica, comprar mais quilos extras para nossa bagagem. QUEM FOR À CAPADÓCIA, e quiser comprar cerâmica, passe em Avanos.

Mas eu vou falar disso mais detalhadamente depois!







2 comentários:

  1. Estou adorando o seu blog e anotando todas as dicas, pois, estou indo pra Turquia para ficar quase 45 dias!
    E me diz, como está o clima ai?
    Ainda muito frio?

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  2. Não falou do Open Air Museum!

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